Lua Cheia
É da dor, da dor, da dor,
da dor do mundo em mim,
das feridas abertas, das histórias sem fim
vividas, sentidas, sofridas
por todos, por todas,
por ela – a mãe da mãe a grande mãe –
que vem a luz,
a luz azul dogmatizada,
institucionalizada no desejo de levar pro outro aquilo que está em nós
como algo maior, melhor:
religião, educação, luz, caminho.
Daí: a missão, ascenção.
a bandeira, reta, certa, caminho aberto e para o alto, sempre, sem olhar pros lados
equilibrando essa dor na retidão.
É por vocação que se faz o cortejo.
Com hybris e por amor.
Lua minguante
mas o sorriso, sendo fácil, traz toda a certeza de que uma hora ele se dissipará.
Sem dificuldade, ele vai se desfazer em uma ruga de preocupação que, por certo,
cedo ou tarde aparece. Triste saber que é tão fácil o sorriso aparecer quanto partir.
Ele se vai, cansa. desanima. e a desistência parece ser um caminho possível, viável.
o invisível, o não-saber, chega, esmaece a certeza e os monstros,
eles, tão cultuados quando se busca a retidão,
chegam. Crescem, aparecem.
veem com a crescente escuridão e esvaziam o calor que, antes, preenchia o peito
e mantinha o sorriso, fácil.
e, de repente, bate uma saudade do certo...
Lua nova
Nascente, a leste, junto ao sol.
desiluminada, degradada, promíscua que prova que sua luz é só reflexo.
cadê o que estava aqui agora mesmo?
só o escuro dura uma eternidade. e a maternidade.
o desespero consciente, a dificuldade de sustentar o leve da vida...
lua nova, lua besta.
Fraca.
Lua crescente
no escuro, na lama, no úmido, no lodo, na podridão.
No podre feio que alimenta a terra; no mangue fedido que nutre o mar:
a nutrição que vem do escuro, do pulsar, do útero receptivo e íntimo,
quente.
Tum-dum, tum-dum, tum-dum.
Toda intimidade é úmida.
germinar vem antes de brotar. a semente nutre a vida.
a raiz desce, a semente irrompe, o broto sobe.
Nascida.
Se escorrega para a luz e se chega ao mundo.
renascida.
Se a descida é violenta, a semente trinca.
Nasce, cresce, flor, fruto, semente, vida.
Morte, vida. Morte, vida. Morte, vida.
Quente, a vida.
Ciclo
Carrego em mim as dores do mundo. Interiorizo no corpo o ciclo infinito.
Longe das dores históricas e daquelas sociais, é nas dimensões divinas
que estão as experiências de vida, as que buscamos
e aquelas que vêm sem ser chamadas, repetidas, repetidas em tantas e tantas vidas,
experiências por séculos vividas que chegam até nós e passam a ser,
de tanto e tanto aparecer e reaparecer,
míticas.
Integração
Semente
Maio a outubro 2018
São Paulo - SP